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Recomendação para Implementação Inicial de um Backbone IP-Multicast
Comitê Gestor da Internet/Brasil
Grupo de Trabalho de Engenharia e Operação de Redes (GT-ER)
Sub-grupo de Trabalho em IP-Multicast e MBone-BR
Autor: João Carlos Mendes Luís
Coordenador do Sub-grupo
jonny@jonny.eng.br
Resumo
O uso de IP-Multicast vem se difundindo desde a criação do
MBone, uma rede de túneis interligando sub-redes com suporte a IP-Multicast
nativo. O IP-Multicast é muito importante do ponto de vista tecnológico
por suas vantagens em relação à utilização
eficiente de recursos de comunicação em rede, bem como à
escalabilidade de comunicações multiponto. Este artigo apresenta
o IP-Multicast e propõe regras para a criação e manutenção
de uma seção Brasileira do MBone, o MBone-BR.
1. Introdução
O uso de IP-Multicast vem se difundindo na Internet desde a
primeira transmissão pública em 1994 [MBONE], quando uma conferência
do IETF (Internet Engineering Task Force) foi transmitida ao vivo para dezenas
de participantes em todo o mundo. Essa transmissão foi realizada
através do MBone, uma rede de túneis interligando várias
sub-redes locais com suporte a IP-Multicast.
A tecnologia de IP-Multicast já vem sendo utilizada no Brasil, desde
1994, onde um congresso internacional no Rio de Janeiro divulgou suas sessões
através do MBone [ITS94]. Na época a transmissão foi
realizada apenas para o exterior, devido à baixa capacidade dos canais
de comunicação nacionais.
Com o aumento da capacidade dos canais de comunicação nacionais,
algumas iniciativas regionais de ligação ao MBone foram realizadas
no país. Essas redes regionais, entretanto, não se falavam,
por não haver uma coordenação nacional com este objetivo.
Pouco depois, por iniciativa de alguns usuários, pequenas redes locais
foram interligadas via túneis MBone, ao longo de boa parte do território
brasileiro. Essa malha de redes foi chamada à época de MBone-BR.
Essas iniciativa, entretanto, não dispunha de apoio oficial e terminou
por ruir.
Este documento apresenta a tecnologia de IP-Multicast e propõe uma
estrutura inicial para uma implementação oficial do MBone-BR.
2. IP-Multicast
O IP-Multicast é uma tecnologia que permite a um transmissor
enviar informações para vários receptores simultaneamente,
de forma eficiente. Esse tipo de comunicação, conhecida também
como comunicação multiponto ou de grupo, é mais eficiente
que uma comunicação broadcast por permitir a recepção
dos dados apenas por membros de um grupo previamente definido, em vez de
inundar os dados para toda a rede. É mais eficiente que várias
comunicações unicast (ponto a ponto) simultâneas por
fazer melhor uso do meio de comunicação, evitando redundância
de informação trafegada.
A principal vantagem do uso de IP-Multicast reside no fato deste permitir
a implementação eficiente de sistemas de comunicação
multiponto, com uma ocupação efetiva do canal de comunicação
bem menor em comparação a uma comunicação multiponto
realizada com várias conexões unicast. Além de proporcionar
uma maior economia de recursos de rede, esta característica ressalta
as possibilidades de uso escalável de aplicações multiponto.
Os sistemas de aplicações multiponto podem ser divididos nos
seguintes tipos principais: Sistemas de difusão (broadcasting), sistemas
distribuídos e sistemas tolerantes a falhas.
Entre as aplicações existentes mais comuns podemos citar as
aplicações de conferência, tanto de áudio [VAT,
IVS] e vídeo [VIC, IVS, NV] como de outras mídias: texto [NTE],
imagem [IMM, WB], etc. Temos ainda aplicações de anúncio
de sessões [SDR], sincronização de relógio [NTP],
roteamento [RIPv2, OSPF], WWW cache distribuído (Squid) [ICP], e
várias outras [MERIT].
Aplicações futuras podem incluir sistemas de processamento
de dados distribuído e/ou redundante, sistemas de distribuição
de arquivos (espelhamento de ftp, news feed, etc), e até mesmo outras
aplicações ainda não imaginadas.
Algumas aplicações já existentes poderiam ser melhor
utilizadas se tivessem sido criadas com o IP-Multicast em mente. Estas aplicações
acabaram sendo feitas sobre unicast por falta de suporte global para IP-Multicast
na infraestrutura de Internet mundial. Os exemplos mais clássicos
deste problema são o WebPush e aplicações tipo RealAudio
e RealVideo.
2.1. Desvantagens do IP-Multicast
As desvantagens do IP-Multicast podem ser resumidas da seguinte forma:
Primeiro, por ser um padrão ainda não estabelecido, em fase
de estudos, as técnicas para uso em roteamento, transporte e aplicações
ainda estão em desenvolvimento.
Além disso, a tecnologia ainda não é universal. Vários
sistemas operacionais ainda não possuem suporte a IP-Multicast. Equipamentos
de roteamento de alta capacidade utilizados no núcleo da Internet,
e que não suportam Multicast, são de difícil atualização,
em vista de seu custo.
Finalmente, os programadores de aplicações não se interessam
em criar aplicações para este tipo de comunicação
por que não há infraestrutura disponível para os usuários.
Da mesma forma, não há interesse em se criar essa infraestrutura
por que não existem aplicações, criando assim um círculo
vicioso.
2.2. Fatos e Mitos
Existem vários comentários técnicos contra
a implementação de IP Multicast. Alguns são reais,
mas outros são apenas fruto do desconhecimento.
Fato: O IP-Multicast possui controle de fluxo ineficiente. A maioria das
aplicações atuais se utiliza do protocolo UDP como mecanismo
de transporte. Esse protocolo não apresenta nenhum tipo de controle
de fluxo, deixando esse controle por conta da aplicação. Efetivamente,
o tráfego de aplicações sem controle de fluxo provoca
um congestionamento nos pontos de maior gargalo de comunicação.
O uso de novos protocolos de transporte, ou de mecanismos de reserva e controle
de uso de recursos deve melhorar este problema, mas estes mecanismos ainda
não estão em larga escala de uso.
Fato: O roteamento do IP-Multicast consome muita memória nos roteadores.
Esse problema ocorre devido à forma com que o roteamento multicast
foi criado, necessitando manter o estado de cada fluxo em cada roteador.
Esse problema pode ser minimizado ou controlado utilizando máquinas
dedicadas para o roteamento multicast, independente do roteamento unicast.
Além disso, com o surgimento de novas tecnologias tanto de roteamento
como de equipamentos esse problema deve ser minimizado rapidamente.
Mito: O MBone consome muita largura de banda apenas por existir. Existem
sim problemas de controle de largura de banda, mas esses problemas não
são inerentes ao uso de IP-Multicast. Eles se devem em sua totalidade
a bugs de software e problemas de gerenciamento. Uma rede bem configurada
pode obter um overhead de tráfego devido ao uso do Multicast praticamente
nulo. Já existem vários relatos de usuários ao redor
do mundo que se interligam ao MBone através de modems domésticos.
Mito: Somente o sistema operacional Unix suporta IP-Multicast. Vários
sistemas operacionais já apresentam suporte ao IP-Multicast, incluindo
a família Microsoft Windows(TM).
3. Instalação
Antes de se iniciar uma proposta de instalação
do MBone-BR, é necessário se fazer uma análise da sua
viabilidade. Em primeiro lugar, para se criar uma infraestrutura de comunicação,
é necessário que todas as partes envolvidas estejam interessadas,
ou o serviço não será universal. Além disso,
como as principais aplicações atualmente em uso no MBone são
do tipo vídeo-conferência, deve-se avaliar a existência
de largura de banda disponível nos canais de comunicação
envolvidos. Mesmo que não haja tal disponibilidade, ainda assim o
MBone pode ser útil para outro tipo de aplicação. Finalmente,
devem haver condições de gerenciamento e monitoração
constante do tráfego multicast e da configuração do
MBone-BR.
A proposta de implementação do MBone-BR deve começar
com a caracterização de pessoas-chave para contato tanto em
caso de problemas, como de novas conexões e alterações
na configuração dos pontos de maior problema.
A instalação do MBone-BR, assim como foi com a Internet, não
deve se dar de forma instantânea, sendo necessárias várias
etapas consecutivas de implementação e análise dos
resultados. Este documento apresenta uma proposta inicial para esta instalação.
3.1. Proposta de Instalação
Esta seção apresenta algumas recomendações
individuais para a instalação do MBone-BR. Estas recomendações
podem ser modificadas ao longo do tempo, por aprovação do
sub-grupo de trabalho, em função de resultados de análise
realizados durante a operação.
3.1.1. Roteamento e túneis
Inicialmente, para as funções de roteamento recomenda-se
o uso de estações Unix utilizando mrouted 3.9beta3 ou superior
[MROUTED]. Nos pontos onde o roteamento for executado por equipamentos dedicados
a essa função, devem ser utilizados túneis DVMRP [DVMRP].
Com a estabilização desta etapa, monitoração
e avaliação positiva da mesma, podem ser feitas experiências
no sentido de utilizar outros protocolos de roteamento.
As principais vantagens do uso deste método residem no fato de não
ser necessário mexer nos roteadores principais, utilizar um protocolo
mais conhecido e necessitar apenas de hardware de baixo custo. Para uma
implementação destas, um pequeno microcomputador, possivelmente
já sem uso, pode ser aproveitado para roteador multicast utilizando
apenas software de dominio publico, como o FreeBSD ou o Linux.
3.1.2. Acesso internacional ao MBone
Nesta etapa inicial da instalação do MBone-BR
deve-se utilizar um único acesso ao MBone internacional. Esta recomendação
tem por objetivo iniciar a instalação sem maiores problemas
referentes a loops e configuração de rotas internacionais.
Recomenda-se para este acesso o uso dos canais internacionais da rede ANSP,
pois os maiores usuários da primeira etapa serão basicamente
acadêmicos, e em sua maioria localizados no estado de São Paulo.
3.1.3. Configuração métrica dos túneis
As recomendações comuns para TTL de pacotes IP-Multicast
são as seguintes:
| Restrição |
TTL
Inicial |
| Máquina |
0 |
| Sub-Rede |
1 |
| Sítio
|
32 |
| Região |
64 |
| Continente
|
128 |
Os mesmo valores utilizados para o TTL inicial de uma restrição
eram utilizados na configuração do threshold dos roteadores
de borda da região. Esta recomendação é baseada
em considerações antigas, e relativas a configurações
de redes utilizadas em outros países. Uma proposta mais coerente
para o tipo de configuração da rede nacional é a seguinte:
| Restrição |
Threshold |
| Laboratório |
8 |
| Instituição |
16 |
| Região
|
32 |
| Backbone
Nacional |
64 |
| País |
128 |
Propostas mais recentes sugerem o controle do threshold em função
da largura de banda disponível, e não da região de
divulgação. Esta proposta deve ser analisada pelo sub-grupo
levando em consideração a experiência obtida com as
primeiras instalações.
O valor da métrica utilizada deve ser unitário, exceto sob
condições de loops controlados (a serem aprovados pelo sub-grupo
de trabalho). Um caso especial de condição de loop controlado
é a ligação de mais de um acesso internacional e dos
acessos inter-regionais.
3.1.4. Monitoração
As redes regionais devem ser monitoradas pelos responsáveis
regionais. Uma pessoa responsável deve ser indicada pelo Comitê
Gestor para a gerência e monitoração dos túneis
nacionais. A gerência, tanto regional como nacional, deve se encarregar
de manter mapas atualizados da malha de túneis e roteadores, monitorando
o crescimento dos ramos e sub-ramos, evitando loops, duplicações,
rotas ineficientes e outros problemas de gerenciamento.
Deve haver uma monitoração gráfica do tráfego
nos pontos principais da rede. Uma forma simples e gratuita de monitoração
é através da utilização do software MRTG, que
constrói gráficos de utilização através
de informações obtidas via SNMP ou outras formas configuráveis
[MRTG].
Estas informações devem estar disponíveis publicamente,
no website do sub-grupo, ou em outra página a ser definida.
3.2. Manutenção e evolução
A evolução do MBone-BR a partir da instalação
inicial deve ser constante. O coordenador regional ou nacional deve especificar
o ponto de ligação de novos membros do MBone-BR. O sub-grupo
de trabalho deve analisar os resultados obtidos, baseando-se nas medidas
e nas experiências dos usuários e gerentes de redes, e propor
novas recomendações.
Em particular estudos no sentido de avaliar a possibilidade de uso de outros
protocolos de roteamento [PIM-SM, MBGP, BGMP] e a migração
do roteamento para os roteadores centrais devem ser incentivados. Também
é importante a análise da viabilidade do uso de múltiplos
acessos internacionais, tendo especial cuidado com o controle de rotas utilizadas
e loops de comunicação através do exterior.
Também deve ser estudado pelo sub-grupo de trabalho as possíveis
implicações de segurança geradas pelo MBone-BR.
4. Apoio e Incentivos
Para garantir a continuidade do MBone-BR, devem ser incentivados
projetos nacionais de pesquisa e uso do MBone.
Um serviço NTP em multicast seria de grande utilidade para os sistemas
de gerência de rede, facilitando a sincronização entre
os equipamentos da Internet Brasil. Isso é de grande importância
para análise de relatórios de segurança, de forma a
melhor identificar os padrões de ataques e tentativas de invasão
espalhados pelo país. O Grupo de Trabalho em Segurança de
Redes do Comitê Gestor tem especial interesse nesta implementação.
Também seria interessante do ponto de vista do usuário final
o incentivo ao provimento de conteúdo. É bastante fácil
se criar uma estação transmissora de áudio e vídeo
utilizando-se apenas de um Micro com capacidade de multimídia ligado
ao MBone. Determinadas estações de Rádio e TV educativas
poderiam ser contactadas para incentivar a sua participação
neste projeto piloto.
Finalmente, devem ser incentivados os estudos de novas tecnologias e aplicações
utilizando IP-Multicast. Já faz algum tempo que a comunidade acadêmica
brasileira vem apresentando interesse em comunicações multiponto,
e a presença de um "testbed" onde poderiam fazer novas experiências
viria a facilitar muito estas pesquisas. Novos projetos de cunho mais prático
podem agora ser colocados em pauta, sendo importante o financiamento destes
projetos. Entre as áreas mais promissoras para as aplicações
multiponto podem ser destacadas as áreas de Realidade Virtual distribuída
e entretenimento (jogos).
5. Conclusão
Este documento apresentou a motivação para o uso de IP-Multicast,
e uma proposta para a implementação do MBone-BR.
6. Referências
[NTP]
Dave L. Mills, "Network Time Protocol (Version 3)
Specification, Implementation", Network Working Group Request for Comments:
1305, University of Delaware, Mar 1992.
[MBONE]
Michael R. Macedonia and Donald P. Brutzman, "MBone Provides Audio and Video
Across the Internet", IEEE Computer, Apr 1994, Vol. 27, No. 4, pp. 30-36.
[ITS94]
Luís F. M. de Moraes e Stephen B. Weinstein, "The Internet Multicast
from ITS: How it was Done and Implications for the Future", IEEE Communications
Magazine, Jan 1995, pp. 6-8.
[MRTG]
Multi Router Traffic Grapher.
http://ee-staff.ethz.ch/~oetiker/webtools/mrtg/mrtg.html
[VAT]
Visual Audio Tool.
http://mice.ed.ac.uk/
[IVS]
INRIA Videoconferencing System.
http://www-sop.inria.fr/rodeo/ivs.html
[VIC]
Video Conferencing Tool.
http://mice.ed.ac.uk/
[NV]
Network Video Tool.
http://mice.ed.ac.uk/
[NTE]
NetText Tool.
http://mice.ed.ac.uk/
[IMM]
Image Multicaster Client.
http://mice.ed.ac.uk/
[WB]
Shared Whiteboard.
http://mice.ed.ac.uk/
[SDR]
Session Directory.
http://mice.ed.ac.uk/
[RIPv2]
G. Malkin, "RIP Version 2", Network Working Group Request for Comments:
2453, Bay Networks, Nov 1998.
[OSPF]
J. Moy, "Open Shortest Path First (OSPF) TCP/IP internet routing protocol,
Version 2", Network Working Group Request for Comments: 2328, Apr 1998.
[ICP]
D. Wessels and K. Claffy, "Application of Internet Cache Protocol (ICP),
version 2", Network Working Group Request for Comments: 2187, National Laboratory
for Applied Network Research/UCSD, Sep 1997.
[MERIT]
MBone Software Archives, Index of MBone Software by Category.
http://nic.merit.edu/~mbone/index/titles.html (conteúdo não disponível)
[MROUTED]
Multicast Routing Daemon.
ftp://parcftp.xerox.com/pub/net-research/ipmulti/beta-test/
[DVMRP]
D. Waitzman and C. Partridge, "Distance Vector Multicast Routing Protocol",
Network Working Group Request For Comments: 1075, Nov 1988.
[PIM-SM]
D. Estrin et al, "Protocol Independent Multicast-Sparse Mode (PIM-SM): Protocol",
Network Working Group Request for Comments: 2362, Jun 1998.
[MBGP]
Multicast Border Gateway Protocol (MBGP); MBGP is based on RFC 2283, Multiprotocol
Extensions for BGP-4.
http://ftp.univ-lyon1.fr/reseau/ip/multicast/pim/mbgp.html
[BGMP]
D. Thaler et al, "Border Gateway Multicast Protocol (BGMP): Protocol Specification",
Internet Engineering Task Force, IDMR Working Group, draft-ietf-idmr-gum-03,
Aug 1998.
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