Brasileiros adoram assistir TV! A pesquisa TIC Domicílios
2006 comprova este fato, mostrando que 97% dos lares do
país possuem pelo menos um aparelho. Democrática e com
conteúdo diversificado, ela agrada a todas as classes sociais. Já
a TV a cabo ainda é um bem restrito no Brasil, presente em 5,4%
dos domicílios, de acordo com o levantamento. Esse não é um
universo exatamente pequeno. Somadas às outras tecnologias
disponíveis, além do cabo - satélite (DTH) e microondas
(MMDS) -, temos mais de 4,6 milhões de residências com TV
por assinatura e 16 milhões de telespectadores. Em 2006, o
setor contabilizou mais de 500 mil novos assinantes, um universo
estimado em dois milhões de telespectadores.
Mas a enorme diferença em relação à abrangência da TV
aberta nos leva a perguntar por que, em um país tão ávido por
televisão, a indústria da TV paga não se popularizou? Porque
não atingiu os mais de 12 milhões de assinantes nos seus
dez primeiros anos de serviço, como previsto na época de
seu lançamento. Além das óbvias razões socioeconômicas, há
outros fatores históricos e culturais que limitaram o crescimento
deste serviço.
A série de transformações tecnológicas por que passamos
- com o crescimento da banda larga, a convergência de mídias,
a chegada da IPTV e da TV digital, a interatividade e outras
tantas novidades - pode delinear um futuro diferente, bem mais
democrático no acesso à informação, ao lazer, à cultura e ao
entretenimento. As redes de alta qualidade da TV a cabo têm
papel muito importante neste processo, e o setor da TV por
assinatura ocupa uma posição estratégica para o fomento da
diversidade cultural brasileira e para a inclusão digital.
A TV por assinatura começou no Brasil há aproximadamente
15 anos, quando não havia infra-estrutura adequada para o
transporte de conteúdos audiovisuais. As operadoras tiveram
que construir redes próprias, o que consumiu altos investimentos
e endividou esta indústria de forma significativa. Diferente das
teles, por exemplo, que na privatização receberam toda infraestrutura
de redes pronta. Isso sem contar o fato de que telefonia
é um serviço público essencial, com enorme geração de caixa.
Já a TV paga, serviço privado, tem custos elevados no mundo
todo. Infelizmente, a renda média do brasileiro é tão baixa em
relação a outros países mais desenvolvidos que os preços ainda
são muito altos para grande parte da população.
Até por esta característica, as operadoras que tiveram grande
dificuldade de gerar caixa e ampliar seus investimentos no início
de suas atividades, concentraram investimentos nas áreas onde
identificaram maior potencial de consumo. Apenas nos anos mais
recentes, as empresas conseguiram reequacionar suas dívidas e
a indústria de TV por assinatura tomou novo fôlego para crescer.
Nesta retomada, as operadoras de TV paga também se depararam
com oportunidades para diversificar seus serviços, oferecendo
conteúdos em pay-per-view e, mais importante, o acesso à internet
em alta velocidade.
A infra-estrutura da TV a cabo é muito superior às redes de
par trançado das operadoras de telefonia e permite a oferta de
um serviço de altíssima qualidade aos assinantes. As redes têm
uma topologia e componentes que possibilitam o tráfego de ida e
volta muito intenso e de forma homogênea - em qualquer trecho,
a velocidade e a qualidade de upload e download, por exemplo,
são idênticas. A tecnologia utilizada pelas teles tem limitações e as
companhias só conseguem fornecer banda larga de qualidade num
raio próximo às suas centrais de telefonia.
Este contexto é importante, pois a banda larga abriu um novo
mercado para as empresas de TV por assinatura, em competição
direta com as empresas de telefonia. E é na oferta de banda larga,
um importante meio para a inclusão digital, que a TV paga tem grande
potencial para se fortalecer e ampliar sua abrangência, passando a
atender novos públicos, em todas as camadas da população.
A pesquisa TIC Domicílios 2006 aponta o custo elevado
da conexão em alta velocidade como a principal barreira para a
popularização do serviço. Os preços estão ficando mais baixos ao
longo do tempo e, inexoravelmente, a banda larga será uma opção
acessível a um número cada vez maior de estratos da população,
ajudando fortemente no processo de inclusão digital.
Para ser economicamente viável, uma rede de TV a cabo
precisa ter pelo menos 40% de penetração. Na cidade de São Paulo,
onde temos duas grandes operadoras de TV a cabo concorrendo
pelos mesmos assinantes, cada uma delas têm, em média, 20% de
penetração. Somadas, elas atingem um número muito interessante,
mas individualmente, ainda estão longe da equação que permitiria
baixar seus custos e promover investimentos em novas redes, em
áreas que hoje não são atendidas.
Esses índices foram projetados com a oferta exclusiva de
TV. Na medida em que se oferece novos serviços como a banda
larga, a rentabilidade da rede aumenta e, com isso, são maiores as
perspectivas de crescimento para o setor, com mais investimentos,
o que justificaria a construção de redes com a mesma qualidade das
atuais, diante de novos mercados. As redes da TV a cabo, que hoje
já atendem uma parcela importante da população, passam a ser
fundamentais no processo de inclusão digital.
Sendo a banda larga um serviço tão importante para a inclusão
digital, poderíamos ter políticas públicas e incentivos econômicos
capazes de estimular a ampliação da oferta. Como temos grandes
contrastes entre as regiões, o governo poderia desenvolver políticas
diferentes também, com fomento nas regiões carentes do serviço.
Seria muito razoável imaginar toda sorte de incentivo, inclusive
isenções tributárias para alguns estados. E isto não significaria
renúncia fiscal para o governo, pois estamos falando de uma
receita que hoje não existe. Desonerando as empresas da carga
de tributos, cria-se um novo mercado, sem que o governo tenha
prejuízo.
As empresas de TV a cabo, mesmo sem as políticas específicas,
já vêm fazendo sua parte na inclusão digital. As operadoras
oferecem seus serviços, tanto de TV como de internet em alta
velocidade, gratuitamente para as escolas públicas localizadas nas
áreas cabeadas. Centenas de escolas são atendidas e milhares de
estudantes beneficiados. O que acontece, e não raramente, é que
este recurso acaba não sendo totalmente usufruído pelas escolas
que não possuem infra-estrutura educacional suficiente para a
utilização dos serviços.
Conteúdo local
Dois outros fatores são limitadores para o avanço da TV a cabo:
a baixa produção de conteúdo local e regional na programação
das operadoras e a falta de licenças para exploração do serviço
na maioria das cidades do país. O Estado de São Paulo tem 645
municípios. Hoje, a TV a cabo está presente em cerca de 10%
destas cidades. E não é por falta de interesse em expandir para
outras praças. Mas há mais de cinco anos a Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel) não abre licenças no país.
Quanto ao conteúdo global, a TV a cabo hoje oferece uma
grade de ótima qualidade, diversificada, com o melhor da produção
internacional. Nós temos acesso aqui à programação da CNN,
da FOX, do National Geographic, HBO, ESPN e tantos outros.
Também temos os canais voltados para diversas comunidades
estrangeiras no país: a TV5 para os franceses, a RAI para os
italianos e por aí vai.
Esta vasta programação, com conteúdo segmentado,
atende os públicos a que são destinados. Prova disso é que as
agências de publicidade e anunciantes investem cada vez mais
nos canais pagos: a TV por assinatura cresceu surpreendentes
25% no número de inserções publicitárias em 2006, em relação
ao ano anterior. Na publicidade, aliás, o setor teve três anos de
crescimento sempre superior ao do mercado. A audiência do meio
cresceu 18% no ano passado.
Viabilizar a expansão da TV paga em outros extratos sociais,
principalmente na classe C, significa necessariamente investir na
produção de conteúdo local e regional. É preciso ter programas em
português que explorem as particularidades e desejos das culturas
de cada estado, ou até município. Algumas experiências vêm sendo
feitas com muito sucesso no interior de São Paulo.
Seguindo um modelo canadense, uma operadora criou um
estúdio, investiu em equipamentos e em treinamento, e é a própria
comunidade que faz a gestão do canal local e produz o conteúdo.
O modelo vem sendo replicado, mas é preciso também que sejam
definidas políticas públicas de incentivo à produção de conteúdo
local, de forma a estimular este mercado.
Futuro digital
A TV por assinatura é pioneira no processo de digitalização e sua
importância cresce com o início das operações da TV digital no país.
As TVs por satélite, que representam um terço dos nossos lares,
já nasceram digitais, por natureza. As TVs por cabo e por MMDS
também estão praticamente todas digitalizadas ou em processo
de digitalização, sendo que atualmente 50% dos "decoders" em
operação são digitais.
Muitas das vantagens da TV digital já estão disponíveis para
parte dos assinantes de TV, como canais com opção de compra
em tempo real; multicâmeras em eventos especiais ou telas que
permitem a exibição concomitante de diferentes canais, para uma
melhor seleção; e serviços em "real time", como o "DVR - Digital
Video Recorder", que permite assistir ou gravar simultaneamente
mais de um programa, com recursos como "replay" e "pause", para
um momento mais adequado e conveniente. A transmissão digital
aberta pouco afetará o mercado de TV paga. Por outro lado, as redes
da TV paga podem facilitar a implantação da TV digital no país.
Na verdade, passamos por uma revolução tecnológica, e a
convergência já está batendo à porta do usuário. A TV a cabo,
apesar dos percalços enfrentados pelo setor, veio para ficar e será
um dos meios desta convergência. A internet desde o princípio trouxe
acesso à informação e à cultura, aproximando pessoas, facilitando
transações, comércio e uma série de outras vantagens. Na medida
em que pudermos avançar com as redes de alta qualidade da TV a
cabo e oferecer banda larga para um público cada vez maior, seja
para transmissão de dados, de voz ou de imagens, o setor de TV
por assinatura dará uma importante contribuição para disseminação
do conhecimento.
* Alexandre Annenberg Netto é representante do setor empresarial - segmento dos provedores de infra-estrutura de telecomunicações
Como citar este artigo:
NETTO, Alexandre Annenberg. Brasil: rumo à convergência tecnológica. In: CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil). Pesquisa sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação 2006. São Paulo, 2007, pp. 43-46..