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Internet para todos, esse é o desafio do Brasil
Rogério Santanna dos Santos* - 29 de maio de 2007
Fonte: Pesquisa Sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação 2006
Os resultados da segunda parte da pesquisa TIC Domicílios e da
TIC Empresas 2006 mostram um avanço no acesso às tecnologias
da informação e comunicação no Brasil no último ano. Também
demonstram que as políticas públicas são essenciais para
promover a inclusão dos cidadãos e das empresas na sociedade
da informação. Se compararmos o que aconteceu com o acesso
à internet e ao computador nos últimos dois anos, verificamos
que os programas de incentivo à aquisição de computadores
mostraram-se mais eficientes que as ações de estímulo ao uso
da internet ou qualquer política nessa área.
Houve melhoria nos índices de acesso ao computador,
especialmente, e à internet. O índice de pessoas que já
utilizaram o computador passou de 45,2% em 2005 para 45,7%
em 2006. O número de pessoas que utilizou o computador nos
últimos três meses passou de 29,7% para 33,1%. O índice dos
que já acessaram à internet cresceu de 32,2% para 33,3% e dos
que utilizaram a internet nos últimos três meses aumentou de
24,4% para 27,8%. Já o percentual dos que nunca utilizaram o
computador e a internet caiu de 54,8% para 54,3% e de 67,8%
para 66,7%, respectivamente.
A residência permaneceu o principal local de acesso para
ambas tecnologias, destacando-se a redução do acesso nas
escolas, que caiu de 24,5% para 18,5% no caso do computador,
e de 21,3% para 15,6% no caso da internet. Salientamos, ainda,
o crescimento em 2006 do acesso à internet nos centros públicos
pagos, que passou de 17,6% para 30,1%. Isso demonstra
a importância de se ampliar ainda mais o número de centros
comunitários de acesso à internet no país, como lanhouses e
telecentros.
Os números globais mostram que o uso de governo eletrônico
em 2006 manteve-se constante - 14% em 2005 e 13,9% em
2006. Porém, quando analisamos o acesso às iniciativas de egov
por classe social, observamos um crescimento de 54,35%
para 65,2% na classe A, reforçando a tendência de que quanto
maior a renda, a escolaridade, e quanto mais elevada a classe
social, maior é a utilização desses serviços. A classe B mantevese
praticamente estável, passando de 40% para 38%, assim
como a classe C, que passou de 14% para 14,8%, e as classes
DE, que passaram de 3,6% para 2,9%. Entre os serviços de
e-gov mais utilizados estão consulta ao CPF, declaração do
imposto de renda, informações sobre serviços públicos de
educação e emprego e inscrições em concursos públicos.
A pesquisa é clara ao mostrar que houve nos domicílios
um crescimento significativo na posse de computadores que, em
números globais, passou de 16,9% para 19,6%, e uma pequena
variação no acesso à internet, que passou de 12,9% para 14,5%.
São dados importantes que mostram o impacto das políticas
adotadas pelo Governo, especialmente o Computador para Todos.
Hoje um número maior de pessoas comprovadamente tem acesso
ao computador, como mostram dados da Associação Brasileira da
Indústria Elétrica e Eletrônica (ABINEE), divulgados no início deste
ano1.
O levantamento da ABINEE, contratado junto à IT Data
Consultoria, sinaliza um crescimento de 46% nas vendas de PCs
em 2006, atingindo 8,3 milhões de unidades comercializadas. Esse
aumento teria sido impulsionado pela evolução das vendas para o
segmento doméstico - 3,5 milhões -, principalmente para pessoas
que compraram o seu primeiro computador - 2,2 milhões. A
comercialização de PCs configurados para o programa Computador
para Todos chegou a 530 mil unidades e as vendas de PCs com
software livre atingiram 1,5 milhão de unidades no ano passado. A
ABINEE acredita que o mercado de PCs deverá crescer pelo menos
20% em 2007, com as vendas chegando a 10 milhões de unidades.
A venda de notebooks crescerá mais de 100% em relação a 2006,
ocupando uma fatia de 14% do mercado total.
O programa Computador para Todos está sendo um sucesso
e devemos ver resultados ainda maiores dos verificados até
aqui, especialmente com a ampliação da faixa de computadores
isentos do PIS e da COFINS para até R$ 4 mil. Aliada a esse
programa, podemos destacar ainda a melhoria do poder aquisitivo
do brasileiro. De acordo com levantamento realizado pelo Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)2, o rendimento médio de
toda a população brasileira permaneceu praticamente inalterado
em 2001 e 2002, sofreu uma redução em 2003, recuperou-se um
pouco em 2004 e cresceu 6,2% em 2005. No período 2001-2004,
portanto, esse rendimento médio caiu 2,5%, mas cresceu 3,5%
entre 2001 e 2005.
Se por um lado, os dados demonstram os impactos positivos
das políticas de incentivo ao computador no país, por outro lado,
evidenciam que precisamos investir com mais vigor em uma política
efetiva de ampliação do acesso à internet. A premissa de que "o
computador é a rede", cunhada pela Sun Microsystems, cada
dia mais se torna realidade e, nesse sentido, é importantíssimo
implantarmos um plano nacional de expansão do acesso à banda
larga no país para que esse acesso se multiplique, possibilitando
que um conjunto maior de pessoas que têm computador possa
dispor da rede mundial.
É preciso aumentar o número de assinantes e de usuários,
seja nos lares, centros comunitários e bibliotecas. Para que
possamos alavancar efetivamente o desenvolvimento é necessário
levar a banda larga a todos os prédios públicos do país, a todas as
universidades, sejam privadas ou públicas, às escolas, postos de
saúde, às delegacias de polícia, entre outros. Há tecnologias novas
e bastante promissoras que vão nos permitir resolver os problemas
particulares do Brasil, uma tarefa bastante complexa num país
de dimensões territoriais como o nosso. Tecnologias sem fio tais
como wi-fi, wimesh e wimax, bem como o uso do PLC (Power Line
Communications) podem alavancar esse processo. Como são mais
rapidamente implementáveis, com sua crescente difusão haverá
uma grande redução nos custos de acesso.
Não há como desburocratizar os processos e eliminar o papel
no âmbito do governo e das empresas sem o uso intensivo das
tecnologias baseadas na Web. Todas as alternativas oferecidas
na sociedade da informação implicam na sua utilização cada vez
maior, seja no ramo financeiro, do entretenimento, dos jogos online,
do comércio eletrônico e do governo eletrônico. Daí a necessidade
de massificação da banda larga, que no mundo inteiro já é uma
infra-estrutura prioritária para o desenvolvimento dos países
economicamente mais adiantados.
A Coréia do Sul é um grande exemplo de sucesso da banda
larga, onde mais de 25% da sua população tem acesso a essa
tecnologia. Nos Estados Unidos, as empresas em rede já são
responsáveis pela metade do ganho de produtividade do país e não
há como pensar governos e empresas modernos sem considerar
essa infra-estrutura como basilar. Na França, o acesso à banda
larga custa cerca de 10 euros por mês e na Alemanha não existe
mais acesso disponível abaixo de 4 megabits. No Japão, 24
megabits custam aproximadamente 20 dólares. São acessos com
largura de banda muito superiores aos disponíveis no Brasil e com
um custo muito menor.
É preciso que a banda larga se generalize, se democratize
e atinja todos os rincões do país, permitindo uma inclusão social
e digital muito maior. A massificação da banda larga também é
essencial para o desenvolvimento econômico do país porque
é o "sistema nervoso da nova economia globalizada". Para isso,
precisamos reduzir custos, ampliar a concorrência e desenvolver
soluções inovadoras e novos modelos de negócios. Isso é importante
para que possamos romper as barreiras atuais e construir um país
com a infra-estrutura de banda larga adequada para os desafios da
nova economia e da sociedade do conhecimento.
Isso é importante também no ambiente empresarial,
especialmente no âmbito das empresas de menor porte. A
TIC Empresas 2006, que investigou estabelecimentos com 10
funcionários ou mais, de 7 segmentos da CNAE3, mostra um
decréscimo na utilização da internet no segmento empresarial, que
recuou de 96,3% para 94,8%. Essa variação se deve principalmente
às empresas de menor porte (de 10 a 19 funcionários), cujo acesso
caiu de 94,9% para 92,7%, enquanto que nas de médio e grande
porte o acesso se mostra universalizado. Nas empresas com 250
funcionários ou mais esse índice é de 100%. É importante ressaltar
que as conexões ainda estão dominadas pelo modem ADSL, mas
há um crescimento das conexões via cabo e rádio, que estão
em segundo e terceiro lugares. O modem ADSL permite uma
velocidade de download que varia de 300 a 600 kbps, aquém das
necessidades do mundo corporativo na atualidade. Já o acesso ao
computador é praticamente universal nas empresas de todas as
regiões e portes investigados, passando de 98,8% em 2005 para
99,4% em 2006. Ou seja, menos de 1% das empresas não utilizam
computadores e não há diferenças significativas por região, porte
ou mercado de atuação.
O acesso às tecnologias da informação e comunicação e à
banda larga é essencial para que as empresas possam manterse
competitivas na atualidade. É preciso permitir, sobretudo,
o acesso das micro e pequenas empresas (MPEs) ao mundo
globalizado e às novas oportunidades de negócios. Nesse sentido,
estamos estimulando a participação desse segmento nas licitações
eletrônicas do Governo Federal. O balanço das contratações
de 2006 mostra a ampla participação das empresas de micro
e pequeno porte nas modalidades de contratação realizadas via
internet. O pregão eletrônico foi o mais utilizado por esse segmento
para fornecer ao Governo Federal. Dos cerca de R$ 2,2 bilhões
contratados junto a este segmento, quase R$ 822 milhões foram
aquisições por meio dessa modalidade. Em segundo lugar está
a dispensa de licitação através da qual as MPEs forneceram
R$ 398,8 milhões ao Governo. As demais modalidades com menor
participação no período como pregão presencial, concorrência,
convite e tomada de preços somaram R$ 1 bilhão.
Houve um crescimento expressivo no uso do pregão eletrônico
pelas micro e pequenas empresas, cujo fornecimento ao Governo
passou de R$ 464,4 milhões em 2005 para R$ 822 milhões em
2006. Em 2004 essa participação havia sido de R$ 108,4 milhões.
Esses números mostram claramente o crescimento do pregão
na vida dos pequenos empreendimentos. Ao invés de reduzir a
sua participação, como acreditavam alguns segmentos, o pregão
eletrônico democratiza o acesso às licitações públicas porque
facilita e reduz os custos de participação para os fornecedores,
dado que os procedimentos ocorrem pela internet.
A TIC Empresas 2006 também mostra que quanto maior a
empresa, maior a probabilidade de utilização do software livre,
seja em servidores ou desktops. Esse índice é de 61,1% nos
estabelecimentos com mais de mil empregados. Nas empresas
menores isso ainda não é uma realidade, já que apenas 19,3% das
que possuem entre 10 a 19 funcionários e 30,7% das que possuem
entre 20 a 49 funcionários, utilizam software livre. As grandes
empresas são mais organizadas e tendem a ter um gerenciamento
mais qualificado sobre os seus ativos na área de informação,
facilitando a tomada de decisões que visam diminuir a dependência
de fornecedores proprietários, reduzir custos e ampliar a segurança
da rede.
É interessante destacar, ainda, que o uso de antivírus é o
recurso de segurança mais adotado pelas empresas (98,1%)
e também nos domicílios (70,2%). No âmbito das residências,
houve aumento na freqüência de atualização do antivírus. Entre
as empresas, o antivírus foi o recurso com maior índice de
atualização - 95,2% - nos 12 meses anteriores à realização da
pesquisa. Essa preocupação é resultado do significativo índice
de ataques de vírus que figura como o principal problema de
segurança constatado no segmento empresarial e nos domicílios.
Em 2006, 51,7% das empresas informaram já ter sofrido esse tipo
de ataque. Nas residências foi de 30,3% o percentual para ataque
de vírus e perda de informação e de 12,2% para ataques de vírus
e danos no hardware ou no software. Também é alto o número
de spams recebidos nos domicílios: 46,6% dos entrevistados
informaram recebê-los diariamente. Relativamente aos recursos
de segurança para comunicação nas empresas, a assinatura
digital eletrônica tem o maior índice de utilização - 22,2% -,
enquanto o uso de criptografia e outras soluções aparecem com
21,8% e 8,4%, respectivamente.
Os números gerais da pesquisa TIC Domicílios e da TIC
Empresas 2006 mostram uma melhoria no acesso às novas
tecnologias no Brasil. Mas apesar dos avanços obtidos, sabemos
que universalização das tecnologias da informação está apenas no
começo e que esse desafio não é uma missão apenas do governo,
seja federal, estadual e municipal, mas também da sociedade
civil organizada. Iniciativas bem sucedidas nessa área requerem
um esforço coletivo e soluções criativas adaptadas à realidade
brasileira para uma inclusão mais efetiva do país na sociedade da
informação e do conhecimento.
1 - Dados disponíveis no endereço
http://www.abinee.org.br/noticias/releases.htm. Data da consulta em 09/04/2007.
2 - Desigualdade de Renda no Brasil: uma análise da queda recente / Organizadores: Ricardo Paes de Barros, Miguel Nathan Foguel, Gabriel Ulyssea.
- Brasília: Ipea, 2006, volume 1.
3 - Os 7 segmentos da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE)
investigados são seção D, F, G, I, K, grupo 55.1 e 55.2, e grupo 92.1 e 92.2,
respectivamente: Indústria de Transformação; Construção; Comércio/ Reparação
de Automóveis; Hotel/ Alimentação; Transporte/ Armazenagem/ Comunicação;
Atividades Imobiliárias, alugueis e serviços; Atividades Cinematográficas/ Vídeo/
Rádio/ TV.
* Rogério Santanna dos Santos é Secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento e membro do conselho do
Comitê Gestor da Internet no Brasil.
Como citar este artigo:
SANTOS, Rogério Santanna dos. Internet para todos, esse é o desafio do Brasil. In: CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil). Pesquisa sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação 2006. São Paulo, 2007, pp. 29-33. |