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Organizando
o caos...
Os tempos românticos acabaram. E aqui estão as provas
Raphael Mandarino
Presidente da Associação Nacional dos Usuários de Internet (Anui) e
membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil
Acredito que todos nós que pertencemos a esta tribo chamada
internautas, sejamos neo-usuários ou webssauros, temos ainda, em
menor ou maior grau, a esperança romântica de que a Internet trará
de volta a democracia plena, na melhor das tradições gregas, ao
permitir a participação universal e igualitária de todas as raças,
credos e culturas e com isso eliminando as fronteiras, as barreiras
sociais, culturais, políticas, econômicas e até, quem sabe, as
religiosas.
Paradoxalmente, mantemos ainda a certeza de que a Grande Rede é a
tradução mais concreta do movimento anárquico, permitindo o exercício
da rebeldia sadia, do não conformismo, do social pleno, sem que seja
possível ser direcionado por qualquer forma de governabilidade.
Todos nós queremos ainda acreditar que a Web é o primeiro e único
local onde verdadeiramente a liberdade individual é inerente, não
precisando ser conquistada a cada dia e está ali para ser usada,
quando dela se quiser fazer uso.
Todos ainda buscamos crer que participar desta grande teia é quase de
graça e que ela será tão difundida e com suas ramificações
estruturadas de forma tão caóticas que será impossível dominá-la,
subjugá-la.
Sonhar é bom. Tenho sido o chato de plantão há algum tempo
apregoando que os tempos românticos da Internet acabaram. Muitas
provas, ou indícios se assim preferirem, podem ser detectados. Vamos
a alguns:
Os nomes de domínios que a princípio - não vamos esquecer - foram criados
para facilitar a vida dos usuários, liberando-os de referenciar complicados
códigos de endereços IPs, tornaram-se o negócio mais rentável e isento de
riscos da Internet. Estamos vendo a Verisign, como noticiado aqui mesmo
no TCInet, abrir mão de controlar o registro de domínios sob o ".net"
e ."org", para manter a exclusividade sobre o ".com",
o mais rentável, e ainda se comprometendo a investir 200 milhões de dólares
em pesquisas. Ela não está fazendo isso movida por sentimentos de generosidade
e sim, pressionada por deter sob monopólio os domínios genéricos, (atenção
"empresários" estou falando de domínio genérico e não de domínio
de país). Por isso, entregou de forma escalonada os anéis menos preciosos
de sua coleção para que se possa ter um início de concorrência.
Um detalhe adicional na divulgação da notícia vale como mais um indício
de que as coisas não são bem como parecem ou são divulgadas. O ICANN foi
criado para ser o fórum internacional, democrático, de caráter privado para
a gestão dos destinos da Internet mundial. Mas essa decisão sobre o ".net"
e o ".org", que já havia sido tomada por seu board, teve que ser
aprovada pelo Departamento de Comércio Americano. Por quê? Porque na verdade
a ICANN - criação do governo americano - ainda funciona como uma "experiência".
Não que seus membros não sejam independentes - ao contrário. A independência
de seus membros, principalmente aqueles eleitos e não escolhidos, é que
faz o Departamento de Comércio ficar com o pé atrás. Aliás, existe uma discussão
interessante "rolando" na ICANN - se deve continuar ou não existindo
esse negócio de eleição de membros "at-large". Sintomático, não?
No Brasil a mina de ouro dos domínios foi descoberta. Ora são "empresários"
que declaram em toda e qualquer oportunidade a sua "desinteressada"
intenção de "colaborar" nos registros de domínios sob o ".br"
ou são instituições "educacionais" querendo "desinteressadamente"
registrar 200 domínios diretamente sob o ".br" (Aliás, as denúncias
sobre as decisões, digamos assim..., esquisitas do Conselho Federal de Educação
já estão na pauta do dia e penso que se o Ministério Público não estiver
sobrecarregado com Painéis, Apagão, Rãs, Câmbio, etc, essas denúncias serão
investigadas e nisso as tais "instituições educacionais" no papel
cairão também no seu crivo). Muito já se falou a respeito. Eu mesmo tratei
do assunto aqui na coluna que teve até direto a réplica de um desses "empresários".
Como visto, estamos falando em grana alta ao abordar o assunto registro
de domínios. Por isso todo o cuidado é pouco.
Outro fato curioso foi a criação da Câmara Brasileira de Comércio
Eletrônico no último 7 de maio. Nada contra a sua criação, pelo
contrário, acho que todos devem buscar seu espaço e o melhor caminho
é a sociedade civil organizada. Respeito as pessoas que participaram
da criação e aos que foram honrados em ser escolhidos para a
primeira diretoria, desejo boa sorte. Mas digo curioso por um aspecto
que me chamou a atenção: a forma da organização e o seu mote que,
salvo melhor juízo, me pareceram uma estrutura nos molde da chamada
velha economia, a tal "cimento e tijolo" - empresários se
juntam para defender o seu. A tal democracia e interatividade que é
apregoada como a grande magia da Internet vale até o bolso,
depois....
Vale lembrar que neste assunto o governo saiu na frente (aliás, com
relação à Internet tem estado sempre à frente) criando um grande e
representativo Comitê Gestor para Comércio Eletrônico. Quem tiver
interessado, dê uma olhada na página do Ministério da Indústria e
Comércio (www.mdic.gov.br) .
Não podemos falar em democracia na Internet sem falarmos em
democratização de acesso. Temos um projeto nacional de inclusão
digital que é muito bom, temos dinheiro para implantá-lo, temos
vontade política. Temos como produto símbolo desse projeto aquele
que está sendo chamado pelo errado nome de micro popular. E temos até
concorrência: saúdo o lançamento do ECO, Estação Comunitária
On-line, pela Microsoft Brasil, que é uma plataforma para
dispositivos dedicados de acesso à Internet com uma arquitetura
baseada no sistema operacional Windows CE. Atende-se a todos os
gostos, Unix ou Windows, sem querer levantar polêmicas...mas para nós,
usuários, quanto mais opção, melhor!
Pois é, tudo muito bem. Só não entendo por que uma medida bem mais
simples, que já seria um bom passo na busca da democratização do
acesso, não sai. Estou me referindo ao projeto 0i00, que será
(espero) em uma tradução simples, uma espécie de 0800 da Internet.
Todos as linhas telefônicas dedicadas ao provimentos de acesso
utilizarão esse prefixo. Isso facilitaria a vida de quem mora no
interior e não tem provedor local. Em síntese tornaria qualquer ligação
para esse prefixo uma chamada local, não importando se o provedor está
na cidade ou no outro extremo do Brasil. Tecnicamente o projeto é ótimo,
ajuda a diferenciar o tráfico de dados do de voz, mas adivinha quem
está contra? Quem não quer perder receita. Reconheço o esforço que
a Anatel está fazendo pelo projeto, mas está faltando um pouco de
pulso!
Por falar em Anatel, tenho uma curiosidade: para prover acesso
discado, as operadoras de telefonia e backbone devem constituir uma
nova empresa. E para prover serviço de hospedagem de sites e
gerenciar portais comerciais não precisa?
Por esses indícios, e por vários outros aspectos que a experiência
pessoal de cada um de vocês agrega a esse assunto, é que volto a
perguntar: não está na hora de pararmos e pensarmos um pouco o que
queremos como usuários da Internet? Será que essa nova economia,
essa revolução nos usos e costumes que a Internet está
proporcionando, deve continuar acontecendo à revelia de quem paga a
conta? Não está na hora de nós, usuários, buscarmos ter uma
entidade forte? Com vocês as respostas!
Não poderia encerrar sem colocar algo que me incomoda muito. Há
algum tempo começou a circular uma idéia de que se alguém tem um
domínio .com ou .net ou ".org" tem um domínio único e
aberto ao mundo. O raciocínio, torto aqui, é de que um domínio genérico,
sem a terminação de país, já tornaria por si só a página
internacional. Ora, um site só é internacional se ele tem conteúdo
que desperte interesse em outros povos, se está traduzido na língua
de quem se quer atingir etc. Não é a terminação que o faz
conhecido. A única coisa que tenho certeza é que o domínio que não
leva o ".br" foi adquirido e armazenado fora do país e foi
transacionado em dólar.
Sei que estou comprando briga, mas vamos a exemplos desta prática, lá vai:
globo.com por conta da rima "com você", segundo explicam, mas
será que quem decidiu sabia que o .com representa entidade ou empresa comercial,
enfim, dinheiro? Ou foi por isso mesmo? Sampa.org, site que é ligado a um
partido político popular, não deveria ter orgulho de ser brasileiro e tacar
o ".br"? Ou será que como usar o ccTLD de Cuba não pega bem no
Brasil capitularam perante o grande Imperialista. E, finalmente, uma câmara
brasileira sem ".br" é brasileira mesmo?
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