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Os rumos da Internet
Quatro eventos mundiais discutem as
tendências da Rede
Raphael Mandarino
Presidente da Associação Nacional dos Usuários de Internet (Anui) e membro
do Comitê Gestor da Internet no Brasil
Caros internautas,
Em nossa última conversa, fiquei devendo falar sobre o Fórum da Enred, que
ocorreu nos dias 8 e 9 e do Walc 2000 - III Taller sobre Tecnología de Redes
e Internet para América Latina y el Caribe, ocorrida entre os dias 10 a
14 de julho. Vou pagar a promessa e "de quebra", comentar sobre
a reunião da ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers),
que aconteceu entre os dias 12 e 16 e do INET 2000 (The Internet Global
Summit) patrocinado pela Internet Society entre os dias 17 e 21, ambos em
julho, em Yokohama, no Japão.
Como se vê, um mês profícuo para a Internet mundial. Sobre cada um destes
eventos teríamos assuntos que ocupariam todo o espaço que me é destinado,
mas considero o poder de síntese uma graça divina e procurarei exercê-lo
de modo a não cansar ninguém. Vamos lá!
O Enred pode ser descrito como o Foro das Redes Acadêmicas dos Países da
América Latina e do Caribe. Sua importância repousa no fato de que foi a
Academia em todos estes países a primeira a ter contato com a Internet e,
em muitos deles, é onde ainda se encontra ancorada. Em outras palavras,
o destino da Internet na maioria dos países desta região ainda é ditado
quase que exclusivamente pelo setor acadêmico.
O que se buscou neste evento foi o intercâmbio de ações e experiências e
principalmente a busca de sinergia e uniformidade na gestão das redes. Um
assunto que foi muito discutido e que nos toca bem de perto são os esforços
para a criação do LACNIC - Registro Regional de Direcciones IP Latinoamericano
y Caribeño -, entidade que administrará os endereços IP em benefício da
comunidade Internet desta região. Para quem não sabe, o processo de administração
dos endereços IP no mundo está em ebulição, sofrendo uma grande transformação
nos últimos 18 meses. A idéia por trás das mudanças é de que, para simplificar
a administração dos endereços IP, o mundo seja dividido em 5 regiões (América
do Norte, Europa, Ásia - que já existem -, África e LA&C) e que entidades
supranacionais administrem aqueles endereços em benefício da comunidade
que representa.
O Brasil, por seus números, não pode deixar de participar intensamente destes
debates e tem se feito presente e atuante em todas as oportunidades através
do Comitê Gestor da Internet no Brasil.
O Walc 2000 é um evento que discute as tecnologias de redes e de uso da
Internet com um enfoque na nossa região. Está em sua terceira edição. Das
diversas oficinas que compuseram o evento, merece destaque "Internet
e Sociedade", que através de apresentações de casos reais, passando
por questões de cidadania, cultura e privacidade, por exemplo, buscava desenvolver
a capacidade de geração de políticas específicas para a LA&C. Outro
destaque vai para "Desenvolvimento de Conteúdos", onde a sinergia
imediata trazida pela língua comum à grande maioria dos países da região
reforça a importância de se buscar aqui no Brasil conhecer o que se está
fazendo a respeito. Não podemos esquecer que estamos isolados pela língua
e neste aspecto somos minoria.
Destaco também "Administração e Governabilidade dos Recursos da Internet",
onde foi apresentada de maneira clara e objetiva a situação atual dos endereços
IP e dos nomes de domínios da LA&C. Não sei se vocês sabem, mas na região
apenas o Brasil e o México administram seus próprios blocos de endereços
IP, significando que, em qualquer outro país, para cada nova empresa que
necessite de um endereço IP é preciso solicitar diretamente ao gestor destes
recursos nos Estados Unidos (Arin - American Registry for Internet Numbers).
É fácil perceber os transtornos, custos operacionais e financeiros decorrentes
disto. O que reforça a necessidade do LACNIC.
Com relação à reunião do Board da ICANN, vale lembrar que esta entidade
surgiu em 1998, quando o governo americano resolveu não mais arcar sozinho
com os custos da coordenação das funções e recursos globais da administração
da Internet. O ICANN é composto de um board e é suportado por 3 outras organizações
que constituem as bases do seu funcionamento: a DNSO (Domain Name Support
Organisation), a ASO (Address Support Organisation) e a PSO (Protocol Support
Organization). O Board da ICANN é composto de 3 membros de cada uma desta
entidades e 9 membros eleitos pela comunidade internacional.
Aliás, este foi um dos temas "quentes" da reunião. Pela primeira
vez vai-se experimentar o modelo de eleição daqueles membros. O Board aprovou
alterações nos seus estatutos referentes aos diretores que serão eleitos.
Ficou decidido que, dos 9 diretores previstos inicialmente a serem eleitos
pela comunidade Internet, 5 serão eleitos em outubro deste ano, sendo um
representante de cada região. Os eleitos tomarão posse em novembro de 2000,
com mandato de 2 anos. As quatro demais vagas de diretores só serão preenchidas
após a reunião de novembro de 2001, onde deverá ser aprovada a forma da
eleição. Desta forma, o mandato de 4 dos atuais diretores nomeados "ad-hoc",
cuja escolha ficará a critério do próprio Board, será prorrogado até a reunião
ICANN de novembro de 2002.
Com relação à criação de novos Top-Level Domínios - TLDs (são os domínios
genéricos como .com, .net e os de países como .br, neste caso chamados de
ccTLDs - Country Codes TLDs) não houve consenso. A idéia era criar outros
TLDs para desafogar o .com .net .org. A grita geral dos demais países é
de que este problema é tipicamente americano e que a adoção do ccTLD .US,
resolveria grande parte do problema. Acontece que registro de domínio deixou
de ser um problema apenas de administração de recursos para ser um negocio
milionário. O Board da ICANN, levando em consideração as recomendações do
Name Council, organismo do DNSO, adotou um cronograma para a criação de
novos domínios de alto nível, que deverão ser implantados de forma gradual,
culminando com a decisão de escolha e criação dos novos domínios na próxima
reunião do Board, que se realizará em novembro próximo.
No INET, o destaque é para a preocupação cada vez maior com a privacidade
e a "governance" da Internet. Destaco como curiosidade e tendência
a reunião plenária que teve como tema "Open Source Movement",
que buscou incentivar a associação e harmonização dos esforços dos internautas
e dos defensores do código aberto em apoio mútuo, buscando sinergia para
os dois movimentos.
Encerrando, queria destacar um problema comum a todos os eventos acima resumidos:
a ausência de brasileiros!
Gostamos e nos ufanamos ao constatar nas estatísticas que somos mais do
que 50% da Internet da América Latina e do Caribe; que representamos mais
do que 70% do comércio eletrônico desta região; que ocupamos a 13a. posição
no mundo em termos de hosts e de usuários. E daí? Neste eventos contavam-se
nos dedos de uma única mão a participação brasileira. Se queremos continuar
a ter um papel de líder regional na Internet, é preciso que os setores organizados
da Sociedade - Academia, Governo e principalmente empresas (pois os dois
primeiros, com todas as restrições existentes, vêm fazendo a sua parte)
precisam sair da casca e acompanhar mais de perto as tendências na Internet
mundial.
As oportunidades que são apontadas e as decisões que serão tomadas nestes
encontros precisam ser de conhecimento daqueles que investem e esperam sobreviver
na onda da Web. Este mercado é para líderes de sucesso, aqueles que acreditam
na fórmula (adaptada para a Internet) 10% de criatividade, inspiração e
talento e 90% de transpiração, confeccionando "business plans"
e gerenciando aqueles talentos. Para aqueles que apenas acompanham tendências
depois de consolidadas, não se preocupem, sempre restarão as migalhas.
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